Resenha - Cristianismo Puro e Simples - C. S. Lewis

 


C. S. Lewis é um dos escritores mais influentes do século XX, escrevendo histórias fantásticas e também alguns escritos que tratam de teologia. Cristianismo Puro e Simples é uma obra que foi inicialmente apresentada via rádio e posteriormente escrita, com alguns acréscimos e revisões do autor.
    O livro é dividido em 4 partes, chamadas de Livro I, Livro II, Livro III e Livro IV. O Livro I denominado O certo e o errado como indícios para a compreensão do sentido do universo; o Livro II, No que acreditam os  cristãos; o Livro III, Conduta Cristã e o Livro IV, Além da personalidade, ou os primeiros passos na doutrina da Trindade.
No primeiro Livro Lewis aborda questões mais filosóficas acerca da moralidade, mostrando que há similaridades entre as concepções morais em diferentes sociedades e em diferentes épocas, demonstrando haver uma moral comum e natural ao ser humano. Fala sobre como o ser humano se comporta diante desta lei e das diferenças entre as leis da natureza humana e as leis da “natureza natural”, por assim dizer. Discorre ainda sobre quem estaria por trás dessa lei moral, e é aí que começa a dar indícios que se refere ao Deus cristão, nesse ponto o autor argumenta sobre a necessidade de que essas leis tenham sido inspiradas por um ser inteligente. No último capítulo do Livro I ele dá algumas razões para a moral cristã.
No Livro II C. S. Lewis entra em uma discussão mais teológica, onde se propõe a abordar um credo cristão geral, neste livro encontro algumas sérias objeções ao pensamento de Lewis, até mesmo contradições. Na página 98 ele afirma: “Quanto pior você for, mais precisará arrepender-se e menos conseguirá fazê-lo. A única pessoa que conseguiria fazê-lo seria alguém perfeito.” Aqui Lewis aborda a questão da incapacidade do homem de se arrepender por si mesmo, remonta à afirmação de Paulo citando o AT de que “Como está escrito: “não há um justo, nem um sequer.” Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.” (Rm 3:10-12, versão ACF). Porém ao explicar como Deus permitiu coisas que estivessem alheias à sua vontade, como a desobediência dos homens, ele usa o seguinte argumento na página 81: “Provavelmente, é isso que acontece no universo. Deus criou coisas dotadas de livre-arbítrio, e isso significa criaturas que têm a opção de fazer o bem ou o mal.” Aqui ele entra em uma clara contradição com o que disse anteriormente, se o homem não é perfeito e não é capaz de se arrepender do mal que faz, como pode-se dizer que ele é livre para fazer o bem ou o mal? E como isso se encaixa na afirmação do apóstolo Paulo de que não há quem faça o bem? A verdade é que somente Adão tinha livre-arbítrio, ele possuía a capacidade livre de escolher entre o bem e o mal e escolheu deliberadamente o mal, mas após Adão o homem natural é incapaz de escolher o bem sem o auxílio do Espírito Santo, o homem natural é livre para fazer a vontade do seu senhor, o diabo, mas não para fazer o que é bom, assim como a água é livre para descer o canal do rio, mas não é para subir. Ouso dizer que nem Cristo teve livre-arbítrio (para afirmar que os únicos dotados dessa capacidade foram Adão e Eva), Cristo não era livre para fazer o mal, visto que sua natureza santa o impedia de pecar.
Lewis deixa claro que não é um teólogo, mas ainda assim se aventura a divagar em questões teológicas complexas e comete alguns erros grosseiros como o do parágrafo anterior, mas no restante do Livro II, Lewis faz uma boa abordagem de algumas crenças cristãs, como da divindade e humanidade de Jesus, de como Jesus pagou o pecado dos seus sobre a bondade de Deus e de como nossa moralidade é inferior ao caráter Santo dEle. Nessas questões primárias da fé cristã, Lewis consegue manter uma abordagem interessante, traz exemplos interessantíssimos e consegue abordar questões de certa complexidade de uma forma bem didática. Ele finaliza essa parte com uma defesa da necessidade do sacrifício de Cristo, como o Cordeiro perfeito que é, e traz uma argumentação muito convincente sobre o motivo pelo qual o Deus Filho teve que ser esse sacrifício, ainda responde algumas objeções sobre a deidade de Cristo.
No Livro III, Lewis se aventura numa abordagem econômica, admitindo também ser leigo em economia e traz uma visão extremamente rasa dos princípios cristãos, afirmando de forma extremamente equivocada que os princípios cristãos são os princípios de esquerda e até mesmo socialistas. Ignorando, provavelmente por ignorância, que a caridade é criticada nos sistemas socialistas, onde o monopólio da justiça social é do Estado, ignorando que a Bíblia defende a propriedade privada, de modo que expropriar as pessoas para conseguir a dita igualdade é uma afronta à Palavra de Deus, ignorando ainda que o sistema socialista é de base ateísta e que a luta de classes é algo frontalmente contrária à frase tema do Capítulo III do Livro III, onde ele aborda essa questão, a frase é “faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”, se você fosse rico (como haviam ricos entre os discípulos), você gostaria que um sistema político dividisse você como um opressor e determinasse que suas posses fossem expropriadas numa ditatura do proletariado? O “faça aos outros o que gostaria que fizessem a você” exige verdadeira empatia. É bem fácil estar numa sociedade que não sofre as mazelas do socialismo e defender tal sistema diabólico. Aqui fica minha maior decepção com Lewis, o respeito como irmão arminiano e até ignoro seu equívoco ao tentar explicar o que não consegue usando o livre-arbítrio, mas aqui temos uma discordância na qual me pego a repensar sua coerência.
Deixando de lado essa séria discordância, nos dois primeiros capítulos Lewis aborda a questão da moral e da virtude, agora sob uma ótica mais voltada à prática cristã e apresenta uma defesa às virtudes necessárias aos cristãos. No terceiro capítulo ele fala sobre a moralidade social, onde ele se equivoca sobremaneira, trazendo uma visão poluída de viés marxista, mas onde não se joga tudo fora, pois faz algumas críticas contundentes às nossas práticas sociais modernas, que é atenuada por ele admitir ser leigo em economia, de modo que aparentemente não conhecia as ideologias marxistas de fato.
No capítulo V, Lewis fala sobre moralidade sexual, ele fala um pouco sobre os conflitos inter-geracionais, que as pessoas tendem a impor sua cultura nas outras pessoas, principalmente nas gerações mais novas, que os mais jovens consideram os mais velhos antiquados e fala sobre a questão da moralidade sexual cristã, que é a realidade monogâmica do casamento, fala sobre fornicação e sobre perversões sexuais de forma geral.
No capítulo VI ele fala sobre casamento, divórcio, que o divórcio é uma queda da promessa que se faz no casamento, e da visão equivocada que as pessoas têm do que mantém o casamento, pensam que a paixão é uma coisa duradoura, mas não é, que o amor é duradouro, e que o amor não é um sentimento, é uma ação, amar é agir de forma a manter o relacionamento saudável. Ele fala de forma mais polêmica da relação entre homem e mulher e de que o homem deve ser a cabeça do relacionamento, dando algumas razões práticas, ao meu ver culturais.
No livro IV, capítulo 10, é onde Lewis comete o maior erro teológico ao meu ver, ele limita o poder de Deus, dizendo que o livre-arbítrio impede Deus de agir, ele dá a entender isso em outros pontos, mas é aqui onde ele fala isso de forma mais grotesca, usando várias vezes a expressão "ele não pode", pois eu chamo Paulo aqui falando sobre objeção dos ímpios sobre a eleição, "quem jamais resistiu à Sua vontade?"
Apesar desse erro grotesco no capítulo 10, o Livro IV é muito bom no geral, Lewis explica questões complexas da fé cristã de forma bem didática, usando exemplos cotidianos para explicar doutrinas muito difíceis, mas sempre tomando o cuidado de não simplificar demais, ao ponto de distorcer. Ele mostra de forma bem clara que os exemplos são para que o leitor possa compreender um pouco melhor ao trazer as questões teológicas para a realidade do indivíduo, mas que tais exemplos não abarcam a complexidade de Deus. Um exemplo é quando ele fala sobre como as Escrituras trazem o relacionamento de Deus com Cristo como o de um pai e um filho, não é um exemplo pelo qual possamos entender plenamente, mas já ajuda bastante, pois traz para uma realidade que conhecemos.
Por fim, é um livro excelente, com pontos de discordância extrema, mas nos pontos de concordância Lewis demonstra o porquê alcançou o status de um dos escritores mais influentes do século XX, ele escrevia muito bem, tinha argumentações muito boas e conseguia se comunicar através de excelentes exemplos. Obra que aconselho a cristãos maduros e com uma visão crítica aguçada.

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