Resenha O Evangelho Maltrapilho - Brennan Manning



O livro O Evangelho Maltrapilho, de Brennan Manning, é um livro voltado para um público específico, pessoas que reconhecem sua pobreza espiritual e sua necessidade constante da graça de Deus. Apesar de não ter nenhum aviso sobre isso, eu não recomendaria o livro para pessoas que não possuem uma boa base teológica. Manning é um ex padre católico norte-americano, que abandonou a batina para se casar, foi alcoólatra e frequentou o AA, segundo ele foi isso que o mostrou essa visão da graça de Deus que ele traz no livro. 

O livro de Manning fala sobre a visão romantizada que muitos cristãos possuem da vida cristã, um evangelho que não aceita falhas e que não aceita a graça de Deus em sua plenitude. Ele aponta que a doutrina da graça é pregada com os lábios e negada com a vida. Dizemos que cremos na graça de Deus, mas sempre queremos ajudar na nossa salvação, buscamos sempre algum mérito próprio, alguma característica que agrade a Deus. Assim como Pedro acreditava que não negaria a Jesus, afirmando que Cristo estava errado ao advertí-lo, nós muitas vezes pensamos que não vamos errar, que somos crentes fortes, firmes e fiéis.

O Evangelho Maltrapilho é o evangelho do reconhecimento da fraqueza, da dependência de Deus, da aceitação de que somos falhos e necessitamos do amor incondicional de Deus. O Evangelho Maltrapilho não requer de nós perfeita obediência, mas perfeita submissão. Não requer de nós perfeição de vida, mas reconhecimento do fracasso que somos. O amor de Deus nos constrange, assim como ao filho pródigo, que antes que pudesse pedir perdão foi abraçado e perdoado pelo pai, ainda que seu arrependimento não tenha sido completo (ele voltou ao pai por causa das suas necessidades).

Apesar de ter muitas questões interessantes, ótimos exemplos e reflexões que podem auxiliar cristãos calejados pela institucionalização eclesiástica, Brennan não é muito claro sobre outros atributos de Deus. Ele foca sobremaneira no amor e misericórdia do Pai, mas não fala da obediência que Deus requer dos seus Filhos. Ele fala algo interessante nesse sentido quando afirma que devemos seguir a Deus não por medo da punição eterna, mas pelo amor correspondido (Ele nos amou primeiro). Mas faz essas asseverações de modo exacerbadamente humanista e flertando muitas vezes com o antropocêntrismo. Vejo com preocupação textos que afagam com demasia o ego humano. É bom sabermos quão grande é o amor de Deus e quão extensa sua graça, mas precisamos nos envergonhar dos nossos pecados, e Manning parece sugerir uma convivência pacífica demais com os erros. Uma coisa é confiar no poder de Cristo para lavar todos os nossos pecados e entendermos que nenhum pecado é grande demais para que Jesus não possa lavá-lo, outra é subestimar o poder do pecado de esfriar nosso amor (não de tirar nossa salvação).

O Evangelho Maltrapilho é um bom livro, com muitos conselhos bons e que pode nos levar a um entendimento mais amplo da maravilhosa e superabundante graça de Deus, que pode nos levar a ver o amor e cuidado de Deus como crianças, totalmente dependentes, mas deve ser lido por pessoas que possuem maturidade espiritual e teológica para entender os limites que Manning não trabalha e parece não defender.

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